Startups digitais são ou ainda serão ameaças às empresas tradicionais, reconhecem executivos

Startups digitais são ou ainda serão ameaças às empresas tradicionais, reconhecem executivos

Ser nativa digital, sem complexos legados tecnológicos e com agilidade para elaborar planos de negócios inovadores transforma as startups em uma ameaça para as empresas tradicionais. Agora ou no futuro. Essa é a avaliação de 78% das 4000 empresas globais que participaram do Digital Business Research Index realizado pela consultoria Vanson Bourne a pedido da Dell Technologies. E motivos para esse receio não parecem faltar, uma vez que 52% afirmam ter presenciado um ambiente disruptivo em seus negócios nos últimos três anos. E para os próximos três anos, 48% das empresas confessam que não sabem avaliar o efeito dessa disrupção em suas áreas e 45% temem pela obsolência. O levantamento também trouxe uma surpresa: o Brasil está colocado em segundo lugar quando se trata de transformação digital. Mas se irá manter essa posição quando for exigido mais investimentos e capacitação é também uma incógnita.

De acordo com o levantamento, apenas 5% das empresas pesquisadas poderiam ser classificadas como líderes digitais. As adotantes digitais, ou seja aquelas que têm um plano digital maduro em andamento, somam 14% e os avaliadores digitais, que estão adotando gradualmente a transformação digital, mais 34%. Mas, segundo Carlos Cunha, presidente da EMC, o maior risco atinge 47% das companhias avaliadas, divididas entre seguidores digitais (32%), com pouco investimento nessa área, e retardatários digitais (15%), que não têm planos nem adotaram iniciativas e possuem investimento limitado para essa área.

“Estamos vivendo a última janela de oportunidade para que as empresas se transformem digitalmente e possam continuar competitivas. É um longo caminho, mas quase todas já começaram”, afirmou. Na sua avaliação, isso não quer dizer que as empresas não investiram em tecnologia, mas não o fizeram sob uma ótica digital necessária para essa evolução. Para Luis Gonçalves, presidente da Dell, mesmo algumas empresas inovadoras não previram a disrupção em algumas áreas. Como exemplo, ele cita a Apple que investiu pesado em sua oferta de música digital, o iTunes, mas acabou sendo impactada por outros serviços de streaming, como o Spotify.
A pressão sobre as empresas pela transformação digital é cada vez maior. De acordo com o levantamento, 56% dessa pressão vem dos clientes, 46% a enxergam nos concorrentes, 41% dos próprios executivos e 39% de demanda de líderes funcionais, exceto de TI. Além das ameaças das startups, 62% enxergam a entrada de novos concorrentes como resultado das tecnologias digitais.

O Digital Business Research Index mostra que as organizações começaram com grau variado de sucesso, mas o avanço é inconsistente. Dos entrevistados, 64% relatam que não se guiam por informação em tempo real e 72% admitem que não estão inovando o suficiente. E 6 entre 10 afirmam que não estão atendendo às principais demandas dos clientes nas áreas de segurança, acesso contínuo e ágil aos serviços e acesso mais rápido às informações.

Os executivos entrevistados relacionaram as cinco principais barreiras para o progresso digital. Para 33% está relacionada à falta de recursos e 31% admitem não poder contar com expertise e habilidades internas necessárias. Nesse ponto, Cunha lembra que as empresas foram buscar soluções de mercado para suas aplicações e desativaram suas áreas de desenvolvimento, o que hoje se faz necessário reverter. Ele considera que o Big Data, de alguma forma, está forçando as empresas a terem algo próximo às fábricas de software que se tinha no passado dentro de casa, com talentos que possam ajudar a extrair o melhor da tecnologia. Ainda entre os obstáculos, para 29% envolve a preocupação com segurança e privacidade dos dados, 29% não sentem apoio da diretoria para essa transformação e também 29% relatam que faltam tecnologias adequadas para trabalhar na velocidade dos negócios.

O setor de telecomunicações lidera o ranking da pesquisa dos setores mais avançados, com 46 de 100 pontos. Logo em seguida está a área de tecnologia, com
45 pontos, de mídia e entretenimento, com 44 e manufatura, com 43. Gonçalves chama a atenção para o desempenho da indústria em quarto lugar, um setor tradicionalmente mais lento na adoção de novas tecnologias. “A indústria está pressionada pela IoT (Internet das Coisas) e a expectativa de crescimento explosivo nessa área”, afirmou.

Em seguida estão os mercados de ciências biomédicas, petróleo e gás e automotivo. “O setor automotivo é um exemplo de um mercado que vem acelerando sua transformação digital. Um exemplo é a Ford, que já trabalha com a perspectiva de um futuro de carros compartilhados”, disse Cunha. As áreas mais atrasadas são as de seguros, com 41 pontos, saúde privada, com 39 pontos e saúde pública, com 37.
Para classificar uma empresa como transformada digitalmente, o levantamento considerou cinco atributos: capacidade de inovar rapidamente; transparência com o usuário; disponibilidade de serviços 24X7; oferta de uma experiência customizada e também de prever comportamentos do consumidor, por meio de sistemas preditivos. Na visão da Dell, a transformação digital acontecerá com a transformação na área de TI, da força de trabalho e da segurança.

Brasil mais digital

A Dell não informa o número exato de empresas que participaram do levantamento por país. Mas Cunha observou que foram feitas no mínimo 200 entrevistas com executivos brasileiros. E o resultado mostra que há muito mais otimismo no mercado brasileiro quando se trata de transformação digital do que com os demais. Enquanto 48% é a média global para aqueles que não sabem como estará seu setor em três anos, no Brasil essa dúvida é de 37%. Se 45% globalmente temem que suas empresas se tornem obsoletas no período de três a cinco anos, a média brasileira é 38%.
Quando se trata da relação com os clientes, as empresas brasileiras estão acima da média. Para 68% são os consumidores que estão pressionando a transformação digital, contra 56% globais. E 61% garantem que estão amplamente concentrados no envolvimento e atendimento ao cliente, para uma média geral de 47% nesse quesito. Para 45% dos entrevistados no país, está sendo proporcionada uma experiência mais personalizada, enquanto o global é 35%. 48% dizem que proporcionam mais segurança, contra 39% e 50% colaboram e compartilham com outros clientes de forma facilitada para uma média mundial de 36%.

A adoção de tecnologias digitais no Brasil também surpreende. 63% afirmam que usam tecnologias digitais para agilizar novos serviços (51% no global), 51% colocaram tecnologias móveis e mídias sociais no centro de seus negócios (37% global) e 73% garantem que adotaram integralmente uma forma digital de trabalho para concorrer com as novas empresas digitais (66%).

E o que pode ter contribuído para que o país chegasse à segunda colocação no ranking de maturidade de transformação digital, atrás apenas da Índia e superando países como Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e Reino Unido? Para Cunha, esse desempenho pode estar ligado ao perfil do brasileiro frente às mídias digitais. “O brasileiro é o que mais gasta tempo em mídias sociais, muito acima da média mundial”, afirmou. Esse comportamento pode ter acelerado a pressão dos consumidores sobre as empresas. Gonçalves também lembrou que o país tem um dos mais avançados sistema financeiro de todo o mundo que, hoje, oferece um leque enorme de serviços digitais.

Mas a transformação pode entrar em uma fase que coloque um pouco mais de dificuldades ao mercado brasileiro: a necessidade de investimentos e capacitação. “Para buscar talentos e capacitação até agora, muitas empresas basearam suas estratégias em hackatons e desafios entre startups. Mas esse recurso não é permanente”, afirmou Cunha.

Para Gonçalves, apesar dos investimentos em tecnologia terem se concentrado nas áreas operacionais, a pauta digital sempre esteve na mesa dos executivos de TI no país. “A tecnologia tem de permear todas as áreas de uma empresa de forma integrada. Senão prevalece o Shadow IT, com os departamentos trabalhando com bancos de dados diferentes”, observou.

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